Em pelo menos duas ocasiões Krzysztof Kieslowski, disse não gostar de A cicatriz (Blizna, 1976) um de seus primeiros filmes de ficção. Ao longo do debate depois da apresentação de Não matarás (Krótki film o Zabijaniu, 1988) no festival de Cannes, ocasião em que foram feitas as fotos dessa página, e logo durante o Festival de Göteborg de 1989 em entrevista publicada na revista francesa Documentaires nº 8, primeiro trimestre de 1994.

Não se trata de uma afirmação incomum.

De quando em quando um diretor recusa um de seus filmes. Chris Marker não queria mais ver nem que fossem vistos vários dos documentários realizados nas décadas de 1950 e 1960. Eduardo Coutinho em conversas sobre Cabra marcado para morrer costuma costuma dizer que não gosta das cenas filmadas em 1964. Joaquim Pedro de Andrade dizia que O poeta do Castelo (1959) era um mau filme com um muito bom personagem, Manuel Bandeira, (“o personagem resistiu bem às inabilidades do diretor”, dizia). E certa vez, num debate a meu lado, na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, discordou radicalmente de todos os comentário elogiosos a O padre e a moça (1966) para ele um filme ruim – anos mais tarde, depois de realizar Guerra conjugal (1975), dizia-se reconciliado com o filme, “fiz as pazes com ele, mas ainda não aguento nem ver”.

Não é incomum um artista recusar um de seus trabalhos, mas a lembrança do gesto entre o nervoso e o desconfortável de Kieslowski e de seu descontentamento com o filme vieram à memória a partir de observações feitas por João Moreira Salles em recente mesa de debates sobre o trabalho fotográfico de Walter Carvalho: um comentário sobre América, série de documentários produzida para televisão em 1989 (para João resiste apenas a fotografia de Walter), outro sobre Santiago, (2007) para sublinhar o que se expressa no próprio corpo do filme, a ideia de que, resultado uma hipótese de trabalho equivocada, o projeto resultou em imagens quase impossíveis de serem organizadas na montagem. Santiago, de certo modo, é um documentário (também, não exclusivamente nem principalmente, mas também) sobre o processo fotográfico usado para compor uma reflexão e um reflexo de determinado fragmento da realidade. Existe num espaço vizinho àquele em que o diretor polonês considera A cicatriz como um erro necessário: na vida, disse, “é preciso errar muito para aprender a não continuar a cometer erros”.

Kieslowski, em Cannes, comentava a cena final de Não matarás, o desespero do advogado ao lembrar que passara pelo assassino poucos instantes antes do crime talvez evitável com um gesto amigo. Em Göteborg comentava as diferenças e semelhanças entre o documentário e a ficção. O mundo de um filme de ficção, diz na entrevista a Documentaires, precisa de um diretor que tenha passado pela experiência do documentário, nenhuma boa ficção se faz sem o conhecimento do mundo proporcionado por um filme documentário. Ao mesmo tempo, existem situações impossíveis de serem documentadas – uma qualquer cena íntima em que a presença de uma câmera iria destruir a espontaneidade e veracidade dos gestos. Por isso, depois de dez anos de dedicação exclusiva ao documentário, passou à ficção, onde, ao contrário, podia filmar tanto um encontro amoroso quanto a morte de um indivíduo e concentrar-se em primeiros planos, nos rostos, nas emoções, nos sentimentos, nas tensões dos personagens, isolar cada um deles do cenário.

Foi o que fez em seus primeiros filmes de ficção. Mas com a experiência acumulada, pensava de outra maneira e considerava, por exemplo, A cicatriz um filme errado, embora no instante em que o realizou estivesse convencido de que deveria ser assim. Um erro, mas para evitar erros semelhantes no futuro. Para encaminhá-lo de novo ao documentário ou a uma ficção apoiada em práticas do documentário: “buscar na realidade imediata os materiais necessários para expressar nossa relação com o mundo. E guardar a frustração de não ter conseguido filmar um certo gesto para aprender com ela a não errar de novo”.

 

 

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A cicatriz interior

 

Kieslowski, maio de 1988, foto de José Carlos Avella

 

Kieslowski, maio de 1988, foto de José Carlos Avella

 

Kieslowski, maio de 1988, foto de José Carlos Avella

 

Kieslowski, maio de 1988, foto de José Carlos Avella

 

Kieslowski, maio de 1988, foto de José Carlos Avella

 

Kieslowski, maio de 1988, foto de José Carlos Avella

 

Kieslowski, maio de 1988, foto de José Carlos Avella


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