
A história se inspira em Balzac, em Le chef-d’oeuvre inconnu. Michel Piccoli interpreta o pintor Edouard Frenhoffer e Bernard Dufour as mãos do pintor que decide retomar uma obra muitas vezes esboçada e jamais concluída, La belle noiseuse, se Marianne, interpretada por Eammanuelle Béart, mulher de um jovem artista que vem visitá-lo, concordar em posar para ele.
O filme que Jacques Rivette realizou a partir do roteiro escrito com Pascal Bonitzer e com Christine Laurent narra em 240 minutos a tensão entre o artista e a modelo.
Em cena Picolli, o caminhar nervoso e sem rumo de um lado para outro do atelier, o ajeitar e ajeitar de novo dos pincéis, lápis, tinta e papéis sobre a mesa, a escolha da luz e da pose correta da modelo. Em cena a mão de Dufour, riscando papel ou tela em busca da imagem inspirada pela presença da modelo, feita para retratar não exatamente a modelo mas, com exatidão, a relação entre o artista e a modelo.
Diante de Picolli a câmera é quase tão inquieta quanto o personagem. Mesmo quando imóvel no tripé desenha uma imagem de um equilíbrio instável, como se os limites do quadro fossem grades de uma jaula onde o pintor se sente preso depois de fechar a porta do atelier e ficar a sós com Marianne para o trabalho.
Diante das mãos de Dufour a câmera é só um olhar atento aos traços, manchas e cores, aos que se esboçam no papel, no caderno de notas, aos que se transportam para folhas mais grandes ou para a tela. Os planos são longos e silenciosos, só o desenho se move para o olhar.
À primeira vista talvez seja possível dizer que La belle noiseuse é mais cinema quando a câmera se encontra sobre Picolli e Béart e mais pintura quando sobre a mão de Dufour e o papel ou tela. Mas talvez seja exatamente o oposto e o filme, de fato, seja mais cinema quando documenta a mão do pintor e mais pintura quando monta a ficção de Frenhofer e Marianne.
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