De certo modo ele escolheu cinema porque certo dia viu Simão do deserto de Buñuel; de certo modo porque de outro jeito a vida não vale a pena. Joaquim Pedro de Andrade colou em seus filmes um texto conciso e instigante que, embora não inserido entre as imagens na tela, fazia parte
da projeção, funcionava como um plano que preparava os demais e que era estruturalmente ligado a todos eles.
Foi assim com O padre e a moça, Macunaíma, Os inconfidentes, Guerra conjugal, Vereda tropical e
O homem do pau-brasil,
filmes que nos fazem pensar que
sem eles o cinema não vale a pena.
> ver o texto
A redenção pelo excesso de pecado
O mesmo modo de comprimir a ação num pequeno espaço de tempo, o mesmo tom áspero de narrar e uma idêntica predileção por uma cena feita de poucos personagens que a um passo de arrebentar de ódio e sofrimento falam quase sem parar numa tentativa frustrada de conter a tensão: estes pontos em comum aproximam Olho de boi (2007) e Sargento Getúlio (1983) como se o filme de agora fosse descendente direto do anterior, como se discutissem um com o outro assim como Modesto e Cirineu, padrinho e afilhado do filme de agora.
> ver a nota A casa da palavra
Montar os dois primeiros planos que encerram as narrativas de Meu nome não é Johnny, de Mauro Lima, e Tropa de elite, de José Padilha, permite examinar melhor as formas de composição dos dois filmes e os diferentes desenhos do traficante que vende drogas nos bairros de classe média alta, no filme de Lima, e na favela, no filme de Padilha.
> ver a nota Duas caras
>ver a nota O espectador de elite


Eduardo Coutinho e Marília Pêra na entrevista coletiva do 35ºFestival de Gramado, em agosto de 2007, para a apresentação de Jogo de cena. O Festival deu ao diretor um prêmio especial pelo conjunto de seus filmes.

A extrema simplicidade da proposta faz parte do jogo complexo que ela propõe: o mesmo cenário e o mesmo enquadramento, um palco de teatro, uma cadeira de costas para a platéia vazia. Na cadeira somente mulheres. Na complexidade da cena de cinema num palco de teatro personagens reais e um grupo de atrizes que interpretam e são também entrevistadas sobre a experiência de interpretar personagens reais. No cinema no palco de teatro também Eduardo Coutinho, o diretor, interpreta: ele repete para as atrizes as mesmas perguntas feitas às personagens reais para seguir de modo absoluto as regras do Jogo de cena.
ver um depoimento de Coutinho em
e os textos críticos
O Brasil por conta de nós próprio
O aparecimento do Neo-realismo italiano (“Que milagre é esse de uma obra que não é cópia de nenhum modelo? – pergunta Vinicius de Moraes diante de Roma, cidade aberta de Rosselini) influenciou não só o modo de produção de filmes entre nós. Influenciou também, e talvez principalmente, o modo de pensar o cinema. Numa série de textos a Revista de Cinema, editada em Belo Horizonte, propôs a uma revisão do método critico a partir da experiência do Neo-realismo.

Matheus Nachtergaele, O primeiro dia de Daniela Thomas e Walter Salles

Em documentários e em filmes de ficção o cinema brasileiro tem visitado ou se instalado na prisão para, simultaneamente, discutir a questão carcerária e tomar a imagem do cárcere como um modo de representar a condição brasileira, como uma reiteração do que certa vez anotou Graciliano Ramos: liberdade completa, ninguém desfruta.
> ver a nota Memórias do cárcere
Dez anos separam O céu de Suely, de Karin Aïnouz (2006), de Terra estrangeira, de Daniela Thomas e Walter Salles (1996), mas os dois filmes parecem desenvolver suas histórias num mesmo cenário dramático. As distâncias e diferenças que existem entre Iguatu, São Paulo e Lisboa são menos significativas que as semelhanças entre um modo de colocá-las em quadro para revelar principalmente personagens empurados para fora dele: no filme de Karin, Hermila que sonha em migrar para o Sul; no filme de Walter e Daniela, Paco, Alex e Miguel, que, estrangeiros em sua terra natal decidem ser estrangeiros no estrangeiro.
> ver a nota Fora de quadro
1968 / 1969: Joaquim Pedro, que quase vinte anos depois disse que entre outras razões fazia cinema para chatear os imbecis e para insultar os arrogantes e os poderosos, contava a história de um brasileiro comido pelo Brasil, Macunaíma, e afirmava num texto colado no filme quase como se fosse uma imagem dele: “Todo consumo é redutível em última análise ao canibalismo. As relações de trabalho como as relações entre as pessoas, as relações políticas e econômicas, são ainda basicamente antropofágicas. Mais numerosamente, o Brasil, enquanto isso, devora os brasileiros”. Há quarenta anos um trem saiu da estação e se pôs a correr, movido pela fome e pela vontade de comer, sem trilhos, vagão solto, tela de cinema adentro.
O primeiro longa-metragem de Gustavo Spolidoro, prossegue e amplia a experiência de seus primeiros filmes de curta-metragem, feitos com um único plano em que a câmera se movimenta quase todo o tempo e passa por diversas situações: Velinhas (1998, cerca de dez minutos de duração) e Outros (2000, cerca de quinze minutos de duração). De novo um único plano em que a câmera se movimenta na mão do fotógrafo por diversas situações e diferentes personagens, mas agora com a duração de pouco mais de 80 minutos.
>ver a nota Ainda Lumière
Imaginemos uma coisa que seja ao mesmo tempo ostra e vento. O imóvel, o fechado e também o que não tem forma nem corpo, é só movimento. O título do filme de Walter Lima Jr., A ostra e o vento além da imagem do conflito que narra, pode ser também a expressão de uma imobilidade toda movimento: a relação entre o espectador e o filme no instante da projeção. O filme (aberto como ar em movimento sopra para todos os lados no fechado da tela) é ostra e vento. O espectador (parado na sala de projeção como uma concha dentro de outra move a imaginação para todos os lados) é vento e ostra.
Para Júlio Bressane o cinema, “organismo intelectual não apenas sensível mas demasiadamente sensível”, faz fronteira com todas as artes”, e existe como se fosse um prefixo. O cinema seria então um trans, um prefixo indicador de trânsito, de movimento em torno de, em direção a, através de. Uma trans-forma. Filme de amor, Dias de Nietzsche em Turim, Miramar, O mandarim, O rei do baralho e O anjo nasceu, são discutidos aqui em um texto,
e duas notas críticas da década de 1970,
No mar da tranquilidade e Sonhando o sonho.
Na década de 1980, o cinema brasileiro voltou-se especialmente para um personagem que se sentia estrangeiro em sua própria terra. Estrangeiro como aquele definido no disco de Caetano, um estrangeiro menos no lugar que no momento, estrangeiro por um modo de sentir o presente como se vivesse no passado, em atraso com a modernidade, esperando dias melhores no futuro.
Final do filme mudo, começo do sonoro, metade do período em que o cinema aparecia como promessa de visão ilimitada: é exatamente neste instante que Limite de Mário Peixoto propõe que, ao contrario, a fotografia e o cinema limitam a visão – e que exatamente desta limitação resulta sua força expressiva: o cinema está ao mesmo tempo de olhos bem abertos e com as mãos atadas.
Talvez seja possível dizer que pelo menos até a década de 1950 o principal impulso para fazer cinema no Brasil tenha sido uma vontade de espectador: filmávamos para prolongar ou homenagear um filme, retomar a emoção sentida no instante de projeção. Só a partir de então passou a existir mais forte entre nós uma vontade de se afastar de modelos importados para inventar formas cinematográficas mais ligadas à experiência do dia-a-dia.
Quando Eu te amo chegou aos cinemas, abril de 1981, Paulo, falido, dentro de casa, desencantado com o país, quase pode contracenar com um contra-campo dele, contente com o país, confiante em si e no milagre econômico (“só não se dá bem neste país quem não sabe se virar”), o Tião Brasil Grande de Iracema, realizado em 1975 mas só então liberado pela censura. Dois personagens diferentes, mas iguais: interpretados pelo mesmo ator, Paulo César Pereio
Um dos filmes com maior número de espectadores na história do cinema brasileiro, O ébrio de Gilda de Abreu, chegou aos cinemas, em agosto de 1946, depois de grande sucesso primeiro no rádio, como canção escrita e gravada por Vicente Celestino, e depois no teatro, como peça adaptada da música pelo próprio Celestino. O cinema então, nos melodramas, como este, ou nas comédias musicais, era especialmente influenciado pelo rádio.
“Me deixa falar!” na primeira fala do primeiro filme de ficção de Ana Carolina, Mar de rosas (1977) a protagonista, Felicidade, resume a vontade que impulsiona o cinema feito por mulheres na América Latina Talvez seja possível dizer que, na essência, o cinema feito por mulheres repete e amplia o que a personagem de Mar de rosas diz: que as mulheres querem falar e querem ser ouvidas, não querem mais ficar falando sozinhas, que sentem falta de algo que nunca tiveram.
Na sessão de gala de encerramento da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, Sandra Kogut fez a primeira projeção pública de Mutum, baseado em Guimarães Rosa. Cinco anos depois de Um passaporte húngaro, esta primeira ficção de longa-metragem de Sandra realiza uma fusão do texto de Rosa com formas de trabalho do cinema documentário.

Imaginemos que diante da ameaça de despencar num buraco negro (a namorada acabou de dizer ao telefone: “eu já nem sei se te amo mais”) um homem procure se agarrar num céu de estrelas – a história que A via láctea, de Lina Chamie, nos conta pode ser resumida assim.
No Festival de Cannes, A via láctea teve a seu lado uma outra experiência de Cinema de poesia narrativa poética, Le scaphandre et le papillon - O escafandro e a borboleta, de Julian Schnabel.

Uma coincidência feliz trouxe aos cinemas quase ao mesmo tempo dois documentários que alternam depoimentos das pessoas que viveram de verdade os fatos narrados com a reconstituição ou repetição de todo o depoimento ou de parte dele por intérpretes: pouco depois de Jogo de cena, de Eduardo Coutinho, surge Juízo de Maria Augusta Ramos. Coincidência feliz para o melhor entendimento de um e de outro filme e para o entendimento da expressão cinematográfica além das questões particulares que cada um destes filmes discute.
> ver a nota
A câmera lúcida