


Ventos de liberdade (The Wind that Shakes the Barley) de Ken Loach
Uma breve nota para lembrar que Vida em família (Family Life) voltou à memória depois do lançamento de Ventos de liberdade (The Wind that Shakes the Barley, 2006).
O titulo deste filme que Ken Loach realizou no começo da década de 1970 indica, como se fosse um trailer, o espaço em que o diretor situou uma boa parte dos muitos filmes que fez em seguida: a vida em família está no centro dos conflitos de filmes de histórias razoavelmente diferentes entre si como Looks and smiles (1981), Riff-Raff (1990), Chuva de pedras (Raining Stones, 1993), Sombras de um passado (Ladybird Ladybird, 1994), Meu nome é Joe (My Name is Joe, 1998), Sweet sixteen (2002), Apenas um beijo (Ae fond kiss, 2005) e de Ventos de liberdade. Este último tem muito do que Loach já fez em filmes anteriores, é algo semelhante a uma nova edição de um livro revisto e corrigido pelo autor. Antes de qualquer outra coisa, The Wind that Shakes the Barley parece uma retomada do conflito central de Terra e liberdade (Land and freedom, 1995).
A paisagem é diferente, o conflito é diferente: em lugar da guerra civil da década de 1930 na Espanha estamos da década de 1920 na Irlanda lutando pela independência contra as tropas inglesas. Mas a questão que se discute nos dois filmes ocorre no instante imediatamente posterior àquele em que os personagens estão unidos sem contradições na luta contra o inimigo: as diferenças internas no grupo em luta contra a opressão abre o conflito para todos os lados, joga irmão contra irmão. Esta questão ocupa toda uma seqüência de Terra e liberdade, aquela em que camponeses e integrantes das Brigadas Internacionais discutem a repartição das terras conquistadas do fazendeiro que apoiava Franco. Em The Wind that Shakes the Barley a discussão se amplia e se aprofunda porque os protagonistas são mesmo irmãos e não apenas gente de diferentes países irmanados na luta contra o nazismo na Espanha.
Ventos de liberdade começa como se não existisse contradição alguma: no primeiro terço da narrativa a violência das tropas inglesas empurra os personagens, e com eles o espectador, para um canto em que eles se vêem forçados a reagir na mesma linguagem que lhe é imposta: jovens trabalhadores e gente do campo se unem para formar um exército de guerrilha e resistir assim a brutalidade do inimigo. Depois das primeiras e bem sucedidas ações do grupo rebelde, a atenção se desloca da guerra civil entre irlandeses e ingleses para os conflitos internos entre os integrantes da guerrilha e assim se concentra no que de fato importa. Em lugar da aparente e tradicional batalha entre os bons e os maus, entre os que dão a vida para tornar o país independente e os que se impõe pela intolerância e brutalidade das tropas, passamos a ter uma luta entre os que lutam pela liberdade.
A questão política é discutida através de um conflito familiar. O protagonista, Damien, é um jovem que abandona a medicina para se reunir ao irmão, Teddy, na luta contra os ingleses.
No entendimento|desentendimento entre os irmãos é que o filme se realiza. E se realiza bem assim como de hábito Loach constrói suas histórias, ficção com aparência de registro documental. Não porque que pretenda fazer de conta que é uma coisa diferente do que é, mas porque se apóia em uma encenação que não segue a convenção narrativa da grande indústria do audiovisual – nem no desenhos dos personagens e trabalho dos atores, nem no comportamento da câmera diante da cena.
Talvez por isso mesmo, o momento fndamental do filme é aquele em que Damien recebe a ordem para executar os dois prisioneiros, o fazendeiro que chamara os soldados ingleses e o colega de infância que não resistira ao interrogatório e denunciara o esconderijo de Teddy. Arma na mão, um segundo antes de disparar contra o jovem empregado e contra o dono da fazenda, Damien gesticula nervoso e caminha de um lado para outro pressionado pela ironia do destino: na escola de medicina estudara para salvar vidas e agora ia meter uma bala na cabeça de uma pessoa.
Imagem marcante porque antecipa o enfrentamento que daí em diante se tornará mais definido e difícil, ele de um lado o irmão de outro, e desenha o espaço trágico em que se passa a história, aquele já anunciado muito antes no título da história de Janice: vida em família.
Amplia-se questão formulada em depoimento na estréia de Vida em família, “por que não lançar perguntas num filme?”: aqui o filme lança perguntas ao vento.
Retoma-se a questão que abre e conclui Terra e liberdade . No prólogo do filme, morre o avô em Londres e a neta descobre entre as coisas deixadas por ele numa velha mala, ao lado de fotografias e recortes de jornais sobre a guerra contra Franco na Espanha, em 1936, um punhado de terra embrulhado num lenço vermelho.


Trata-se da terra em que foi enterrada uma companheira das Brigadas Internacionais, recolhida pelo avôno momento do enterro, informação que o espectador só recebe perto da seqüência final, quando do enterro na Espanha de 1936, voltamos à Londres do presente em que o filme foi realizado, 1995, ao enterro do avô.


No enterro do avô a nota lê um poema de William Morris, que encontrou entre os papéis dele: “Entre na batalha. Nela ninguém perde. Mesmo para aquele que perde, seus feitos ainda prevalecem”.
Em seguida, abre o lenço vermelho, joga o punhado de terra sobre o caixão do avô e ergue o lenço vermelho.



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