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O castelo bem assombrado

[nota escrita para jornal e originalmente publicada em agosto de 1981]

Tatsuia Nakadai, Akira Kurosawa e Tsutomu Yamazaki: filmagem de Kagemusha

Tatsuia Nakadai, Akira Kurosawa e Tsutomu Yamazaki: filmagem de Kagemusha


Sentados diante do sósia de Shingen Takeda num dos salões do castelo de Tsutsujigasaki os dois criados e os três samurais da guarda pessoal do chefe do clã dos Takeda se comportam exatamente como costuma se comportar o espectador da cinema durante a projeção de um filme. Estão imóveis, na sombra, olhos fixos na imagem do senhor dos Takeda. O sósia acabara de chegar ao castelo para ser recebido pelos servos, soldados e generais do clã e também pelo herdeiro de Shingen, o garoto Takemaru, de apenas cinco anos de idade. O sósia, então, é como uma imagem de cinema ao vivo – como uma imagem da invenção de Morel relatada por Bioy Casares, a máquina capaz de filmar e projetar em três dimensões, no espaço, sem tela alguma, as imagens filmadas com absoluta sensação de realidade. O sósia é o filme de Shingen Takeda.

 

No longo e nervoso cerimonial de boas vindas, não exatamente para ele mas para o chefe do clã dos Takeda, o sósia controla cada um de seus gestos para se fazer passar pelo chefe morto. Terminada a cerimônia, sozinho no quarto com os únicos empregados do castelo a saber da verdade, o sósia deixa de ser a perfeita cópia para ser ele mesmo. Estava mais tranquilo. Os samurais e empregados estavam também mais a vontade. Nobukado, irmão de Shingen, já se retirara depois de passar as instruções necessárias. Os samurais e os criados podiam enfim conversar e rir e, despreocupados, relaxar o corpo, sentar-se em posição menos rígida que a atitude respeitosa que são obrigados a assumir quando diante do senhor – e que foram obrigados a repetir diante do sósia do senhor. A tensão acabara e cena segue neste clima descontraído por alguns instantes: o sósia ri e torce o corpo deselegante e solto, os samurais e empregados riem, soltos também, ainda que menos desalinhados que aquele que se fazia passar pelo chefe morto em combate.

 

De repente a cena muda de tom. A atmosfera volta a ser solene e tensa quando o sósia, retoma a imitação e substitui o riso escancarado por uma expressão austera. Puxa lentamente a banqueta para apoiar o braço e leva a mão direita ao rosto para acariciar o bigode e o cavanhaque – gesto característico de Shingen. Os samurais e os criados estremecem. Todos voltam à posição respeitosa, à expressão grave de pouco antes, e um dos criados não se contém e baixa o rosto para chorar – ali estava redivivo o líder que ele sabia estar morto.

 

Eles agem então como espectadores de cinema. Sabem que ali está a aparência, um sósia, um homem que imita o chefe mas não e o chefe, mas se deixam lavar pela aparência, pelo filme vivo, pela impressão de que ali está mesmo o senhor Shingen Takeda. A ilusão de realidade é mais forte que a realidade que provoca a ilusão. O sósia é como um filme, brinca com o olhar. Os cinco homens diante dele agem como todos nós que, na plateia do cinema estamos diante de Kagemusha. O sósia dentro do filme, a sombra do guerreiro, e o filme sobre o sósia, estão na tela exatamente como uma ilusão de ótica, como um jogo de luz e sombras, como uma sombra do real feita para confundir o olhar e simultaneamente aguçar a visão.

 

No escuro, sem poder ver, o soldado dispara através de uma abertura da muralha do castelo e acerta no alvo, porque ouvia atento a música da flauta de Shingen Takeda. O som guiou os olhos do soldado na escuridão.

À luz do dia, os espiões de Nobunaga Oda e de Ieyasu Tokugawa erram o alvo, confundem o sósia com o verdadeiro senhor dos Takeda. Também à luz do dia, Katsuyori, filho de Shingen, vê o céu ameaçador sobre as águas do lago Suwa, vê o sinal de perigo para a montanha – que não deveria se mover, lembram os generais –, mas ainda assim caminha para a derrota. Katsuyori vê mas não sabe ver. A luz intensa não deixou os espiões de Nobunaga e Ieyasu ver, nem deixou o filho de Shingen ouvir o que diziam os generais.

 

À luz da projeção espectador entende bem que cinema se faz com imagem e som. O sósia, o duplo, a sombra, tem o gesto de Shingen Takeda e também o som que o sósia faz ao arranhar a garganta como o guerreiro que imita. O espectador acompanha esta história de pessoas que se deixam levar pelos olhos, aprende pouco a pouco, pela prática, enquanto vê, a identificar as ilusões de ótica, a separar o sósia do real que ele imita. O espectador educa o olhar.

 

Os responsáveis pela versão internacional em exibição entre nos, é verdade, um pouco descrentes deste processo de educação, reduziram um pouco o tempo de visão e trataram de incluir uns poucos sinais para “facilitar” a tarefa. Identificam os personagens com legendas, marcam as primeiras aparições do sósia com legendas, para evitar que o espectador ficasse sem saber se se encontrava diante do verdadeiro Shingen ou de seu sósia. Mas o que Kurosawa pretende com este filme é levar a plateia a descobrir as coisas por si mesma, ao correr da cena.

 

No começo o espectador pode até não compreender muito bem o que se passa, como na primeira imagem do filme, em que ele se vê diante de três personagens rigorosamente iguais, com o mesmo rosto, com os mesmos trajes, sentados numa mesma pose. Tão iguais que se torna até difícil saber qual deles fala e sobre que este que fala se refere. No começo o espectador pode ate se sentir meio perdido, mas na medida em que a cena avança tudo se esclarece.

 

Leva algum tempo até que se possa compreender a cena em que o atirador, de dentro do castelo, mostra aos senhoras Nobunaga e Ieyasu como preparou seu fuzil para atirar no chefe do clã dos Takeda. A razão da cena não aparece antes da cena. Nenhum personagem anuncia o que vai acontecer nem o narrador dá qualquer informação prévia para melhor situar o espectador. O sentido da imagem surge aos poucos, e surge mesmo para o espectador que se dispõe a tirar da cena aquilo que se pode apanhar com o olhar, porque os personagens não se movem simplesmente para ilustrar um dialogo, mas sim para atuar como um perfeito sósia do real. Os gestos não se simplificam, não se reduzem ao tempo necessário para sugerir a ação. Ao contrário, seguem o tempo e a tensão real da ação, ou pelo menos um tempo tão próximo do estirado tempo real quanto possível. Kagemusha, a sombra do samurai avança sem pressa. Não é a ilustração de um conceito, mas imagem que se da a entrever – porque de fato é assim que ela aparece na tela, como imagem coberta de sombras e que pode apenas ser entrevista pelo espectador.

 

Quando as tropas de Shingen Takeda chegam às imediações do castelo
da Takatenjin para dar cobertura aos soldados de Katsuyori, temos um bom exemplo desta lentidão – se é que podemos chamar assim esta coisa sem pressa feita para ser olhada, para ser examinada longamente pelo olhar.

 

A câmera, fixa num determinado ponto da uma elevação, repete uma infinidade de vezes um mesmo movimento em torno de seu eixo, da direita para a esquerda e de volta rapidamente para a direita para de novo movimentar-se para a esquerda e ver a chegada da guarda pessoal de Shingen Takada. O primeiro movimento mostra chegada dos soldados com as bandeiras do clã. Eles começam a fincar as bandeiras no terreno e a câmera volta para pegar os cavaleiros. Enquanto os cavaleiros se arrumam em torno das bandeiras, a câmara volta para pegar os lanceiros, e depois para pegar outros cavaleiros, para pegar o sósia, e outros lanceiros e cavaleiros.


Cada uma destas idas e vindas é, ao mesmo tempo, igual a diferente da anterior porque embora o caminho seja o mesmo varia a velocidade, varia o movimento dos personagens dentro do quadro, varia a atmosfera, às vezes limpa, às vezes encoberta pela poeira levantada pelas patas dos cavalos. Um novo detalhe se acrescenta a cada repetição do movimento, e o sempre igual aparece diferente.

 

Não importa muito que tudo quanto é filme seja feito da imagens, porque com certa frequência as câmeras não sabem ver e se confundem tanto ou mais que os espiões de Nobunaga e Ieaysu e que o ressentido Katsuyori. Não importa que tudo quanto é filme seja feito de imagens, porque muitos deles não possuem o prazer de olhar que se mostra aqui, nesta historia que examina criticamente a relação do indivíduo com um sistema de poder apoiado na visão e no respeito à encenação, ao ritual. E que faz este exame a partir de um personagem meio à parte, o sósia, o homem que revela sua individualidade só num segundo olhar, que existe na maior parte do tempo como imagem de algo que ele não é.

Muito provavelmente o espectador passa pelo filme sem se dar conta do cuidadoso requinte da construção da imagem, sem notar, por exemplo, as repetidas idas e vindas da câmera para filmar a chegada das tropas da Takeda ao castelo de Takatenjin. Isto porque Kurosawa conduz a câmera como uma perfeita sósia do olho humano, preocupado antes da mais nada em restituir às pessoas o prazer de olhar, o prazer de se deixar lavar pela aparência primeira da imagem, assim como os samurais e criados de
Shingen Takeda se deixam levar pela aparência do sósia. Isto porque a Kurosawa procura mostrar que a a compreensão do confronto entre Takeda e Ieyasu e Nobunaga se compreende é melhor se o observador tem os olhos no sósia tal como a realidade se compreende melhor se o espectador tem os olhos nesta especial sombra ou sósia da realidade que é o cinema.

 

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