A estratégia da aranha

[escrito para o jornal e publicado em 9 de agosto de 1984]

 

Umberto Zuanelli, Prova d'orchestra de Federico Fellini

Umberto Zuanelli, Prova d'orchestra de Federico Fellini

 

Ensaio de orquestra (Prova d'orchestra) é o décimo sexto filme de Fellini. Foi realizado em 1978, entre Casanova (1976), e A cidade das mulheres (1979), bem antes de E la nave va (1983). A ideia de um filme sobre um ensaio de orquestra, no entanto, esclarece o diretor, é coisa antiga. Surgiu pela primeira vez, ele nem se lembra quando, trinta anos antes, durante um ensaio para a gravação da música de um de seus primeiros filmes. Surgiu de novo, e de novo, e sempre, disso ele se lembra bem, nos ensaios para a gravação da música de seus filmes seguintes, ocasiões em que experimentava uma sensação especial:

 

“Um sentimento de surpresa e de incredulidade diante do milagre que se realizava debaixo de meus olhos. Eu via chegar ao estúdio de gravação indivíduos muito diferentes uns dos outros, carregando seus instrumentos e carregando também seus problemas pessoais, cada um com seu senso de humor, sua doença, seu rádio de pilha para ouvir o futebol. E maravilhado observava que desse contexto de confusão e desordem, desses colegiais rebeldes, à custa de repetidos ensaios, chegava-se a fundir aquela massa heterogênea numa forma única, abstrata mesmo, que é a música. Essa operação de ordenação da desordem provocava em mim uma grande emoção”.

 

Percorrer o caminho inverso, tentar uma operação de desordenação da ordem que está na tela, isso é o que o espectador deve fazer para melhor se relacionar com Ensaio de orquestra. Quebrar a unidade da forma. Pegar o filme “como massa heterogênea” mesmo. Pegar os personagens como anotações soltas, como esboços independentes do contexto em que existem.

 

A pianista, gestos largos e exibicionistas, como se quisesse ocupar na cena espaço idêntico ao de seu instrumento, diz que o piano é “como um rei em seu trono".

O violoncelista diz que o violoncelo se parece com o amigo ideal, fiel, discreto, verdadeiro.

O músico gordo esquecido num canto diz que a tuba é um instrumento solitário.

A harpista diz que seu instrumento está presente nos sonhos de todo mundo.
O clarinetista lembra, e repete, e repete, e repete mais, diante da insistência maliciosa dos colegas, o que disse, Toscanini ao ouvir o som de seu instrumento: “bravo, meu jovem, enfim um belo som de clarinete.”

 

No começo, Ensaio de orquestra é assim, os músicos falam de seus instrumentos para um invisível entrevistador, que se insinua na imagem por umas raras perguntas ligeiras e pela interferência da luz que acende para iluminar os entrevistados. No começo é como se nem existisse intermediário algum, só a desordem na sala em que os músicos que aguardam a chegada do maestro para começar o ensaio. Desordem acentuada pela câmera, que corre (parece) sem destino certo de um músico para outro, para ouvi-los falar do seu instrumento, de um qualquer incidente no trajeto entre a casa e a sala de ensaio, ou contar uma qualquer anedota que não tem não tem a ver com coisa alguma.

 

Um velho musico se destaca no fundo da cena como se quisesse dizer alguma coisa, mas na verdade não quer falar nada de seu instrumento, o violino. Quer apenas mostrar as teias de aranha que dançam no teto a cada novo toque do trombone.

Um outro músico conta a discussão que teve na rua com o motorista do carro parado bem na frente dele. Dois outros brigam pela correta posição de suas cadeiras.

O representante do sindicato briga com todos e todos brigam com ele, pelo salário e pelo cumprimento do horário de trabalho.

 

O melhor do filme está aqui, antes do ensaio, nestas cenas ligeiras, repetitivas, que não encaminham nenhuma história precisa, mas são ricas do que Fellini sabe fazer com extrema habilidade – a caricatura em traços rápidos, generosos e eficazes do mau (e do bom) humor de cada um, da doença e do rádio de pilha de cada um.

Um plano só, o do copista que distribui as partituras peias diversas estantes, ao mesmo tempo em que fala da perfeita acústica da sala, dos artistas, príncipes, embaixadores e padres, que já passaram por ali, e de sua próxima aposentadoria, só este plano – como qualquer outro deste começo – vale por uma história inteira.


Mas essa desordem inicial passa. E quando a história se ordena, o filme perde a afinação das primeiras cenas.

 

A ordenação da desordem num ensaio de orquestra, disse Fellini,“é uma situação que traz dentro de si, de um certo modo, de um modo emblemático, a imagem da vida em sociedade”. O diretor tentou compor “uma fábula ou um apólogo” para representar a Itália (e bem em particular a Itália do momento do assassinato de Aldo Moro), mas para ele a história que conta é também uma representação de qualquer lugar do mundo onde se vive “a violência anônima de todos os dias”.

 

Os músicos brigam entre si por suas pequenas manias e brigam com o sindicato para evitar trabalho demais e entrevistas não pagas para a televisão (fato lamentável, lembra o maestro, porque se existissem sindicatos no tempo de Wagner não teríamos as óperas que ele nos deixou).
O maestro briga com os músicos, exige um som organizado e não ruídos desagradáveis como se fossem assobios e xingamentos ao juiz num campo de futebol. O copista lembra saudoso o tempo dos bons músicos, que andavam de paletó e gravata, que eram punidos pelo maestro com a batuta improvisada em palmatória, e que gostavam de ser punidos.

 

De repente falta luz na sala, começa a baderna: os músicos derrubam o maestro, pintam frases de elogio ao toca-discos, preferem um metrônomo no lugar do maestro. Brigas. Tiros. Violinos, clarinetes e fagotes transformados em armas. O maestro, sentado a um canto, observa sem intervir.

 

A orquestra e a sala como uma imagem da vida em sociedade — quer dizer: as ações que se passam na segunda metade do filme foram feitas para funcionar não apenas como a cena imediatamente visível, como um pastelão bem à maneira antiga (e meio sem graça) que são, mas para funcionar também como uma parábola (não política, insiste Fellini, mas ética) para provocar “uma certa vergonha nas pessoas, para mostrar que a loucura desorganizada das pessoas pode provocar a loucura organizada do Estado, a ditadura” — nessa parábola representada na personagem do maestro alemão, que no final, depois da última imagem, berra em alemão para exigir mais força, mais música: um som de trompete para despertar os mortos e não para adormecer as mãezinhas.

 

Talvez um passar de olhos pelas notícias do seqüestro e morte de Aldo Moro despertou o medo de se ver debaixo de um terror semelhante ao do fascismo. Ensaio de orquestra, então, tende a ver as pessoas, a sociedade, pelo menos a sociedade deste instante na Itália, como naturalmente desorganizados, indisciplinados como colegiais rebeldes. A desordem, então, se transforma num convite a um poder que os organize assim como a orquestra, com um maestro forte. Não por acaso, o maestro é um alemão – o que tanto pode ser plausível do ponto de vista da música quanto do ponto de vista das relações entre Itália e Alemanha na história recente da Europa.

 

Uma imagem contraditória, na medida em que os governos em geral tentam convencer as pessoas comuns da necessidade do controle do Estado: livre, solta, a pessoa se torna uma ameaça para a pessoa. Certamente não é o que o espectador sente enquanto na primeira metade do filme, antes da música, vê de perto pessoas comuns que, de tão ligadas à música adquiriram características do instrumento que tocam, ou que, ao contrário, deram ao instrumento que tocam um pouco de sua humanidade, um pouco de suas tristezas, manias,dores e alegrias.


A pianista com cara de piano, a flautista com cara de flauta, o gordo com cara de tuba agarrado a sua tuba gorda, o trompetista com voz de trompete.
Todos tocam desorganizadamente e talvez (como lembra o velho violinista) sem motivo e sem razão alguma a não ser só soprar o ar para que a aranha, lá em cima, em sua teia, possa se balançar.

 

> ver também sobre Fellini:

Sonhadores do mundo todo, uni-vos

A vida como um palco iluminado

e ainda Recordações de amanhã

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