No fim da linha

[nota para o lançamento de A última estrada da praia, de Fabiano de Souza,
Rio de Janeiro, outubro de 2012]

 

A última estrada da praia de Fabiano de Souza

 

 

Rio Grande do Sul, cidade pequena, perto do litoral. Na cabine do cinema que já não funciona o projecionista explica como conseguia o efeito igualzinho ao de som estéreo. O artista falava lá tela e quando entrava o fundo musical ele apertava um botão para o som brilhar em toda a sala. Mostra os diferentes formatos de película, do amador, 8mm, super 8 e 9,5 mm, à bitola profissional, 35 mm. Começa a projetar um filme e Norberto, que parecia seguir a explicação com dedicada curiosidade, dorme no meio da sessão. Sonha com um filme em que alguém rouba um carro e encontra uma arma no porta-luvas.

 

Na praia, a lembrança de um sonho de criança. Norberto estava num avião. No ar, voando. Não tinha mais ninguém no avião. Ele andava pelo corredor, olhava para as poltronas, tudo vazio. Ia para frente, passava pela primeira classe, tudo vazio. A porta da cabine estava empenada, ele forçava, forçava, forçava e quando conseguia abrir, ninguém pilotava o avião. A cabine estava vazia. O avião voava sozinho. Um silêncio. Uma pausa na narrativa. Depois de um tempo Norberto pergunta, quase num sussurro, para o desconhecido a quem contava o sonho e para si mesmo: “Esquisito, não é?”

 

As duas cenas, no meio de A última estrada da praia, reiteram o que se diz desde o começo: com lógica idêntica à que organiza os sonhos, o filme nos conta uma esquisitice cinematográfica, uma história de quase crianças que fogem da realidade sem sair dela: fogem da responsabilidade do mundo adulto, sonham com um avião, no ar, em pleno vôo, nenhum piloto na cabine.

 

No começo, o fim da linha. Antes dos letreiros de apresentação, um desconhecido desperta na praia sem dizer palavra – e assim permanecerá ao longo da aventura, ao lado de três jovens amigos que, parece, querem chegar na praia em que ele dormia. O desconhecido acorda meio coberto de areia e como quem ainda não despertou de todo. De volta à cidade, num ônibus, de olhos abertos, sonha acordado – vê o mundo de cabeça para baixo – até despertar de novo com o repetido aviso da cobradora: “Fim da linha!” Tenta pagar a passagem com um dinheiro que não vale mais, e com a mesma nota sem valor tenta comprar cigarros antes de voltar a dormir. Fim da linha, o sonâmbulo, o que não fala, o que traz um dinheiro que não vale, aceita a carona dos três amigos que se abandonam de si mesmos na estrada para a praia. Querem jogar fora todas as certezas e viver desperto um sonho de liberdade absoluta: Norberto, que parou de fumar mas precisa de um maço de cigarro no bolso, Leo, que gosta de pizza mozarela e sorvete de creme, e Paula, que gosta do Leo, mas gosta também de Norberto. Viajam com um só objetivo, sair do fim de linha para outro fim de linha.

 

Imaginemos uma história ambientada entre o que Leo quase escreve no cartão postal que não vai levar ao correio (“lembranças tenras e doces da nossa infância, quando ainda éramos bobos”), o comentário de Norberto no jogo de futebol (“somos três retardados brincando de jogar bola”) e o comentário nostálgico Paula sobre um verão perdido (“se eu soubesse onde é a tua casa na praia... um dia a gente volta para lá”). Imaginemos, e estaremos diante não apenas da história contada como igualmente do modo de contar histórias nesse filme. O personagem narrador (bobo? alegre? retardado?) segue os personagens movido por um sentimento cúmplice desse estado entre a vigília e o sonho, desse caminhar sem rumo entre a saudade da casa de praia e o verão para brincar de jogar bola. Caminham para fora do tempo imposto pela vida adulta e, sem sair dela, com a possibilidade de se autodeterminar, com a possibilidade de escolha do mundo adulto, retornam ao tempo de criança. A última estrada da praia é a aventura de três amigos movidos, talvez, pela questão expressa num verso do comentário musical que sublinha uma cena em que todos parecem se divertir: “eu não consigo ser alegre o tempo inteiro”. Os três se deixam levar pelo absolutamente não planejado, pelo não conhecido, pelo desejo de recuperar o tempo bobo da infância para, numa brincadeira de retardados, serem alegres o tempo inteiro.

 

Na estrada para a praia a estrada é mais importante do que a praia. Leo, Paulo e Norberto mudam de rumo a todo instante: interrompem a viagem para brincar na roda gigante de um parque de diversões; deixam o carro na rodoviária e compram uma passagem de ônibus para outra cidade; pegam a fila mais longa e demorada do pedágio; entram num cinema para ver um filme e dormem no meio da sessão; largam o carro no hotel para andar de barco em busca do desconhecido; escrevem cartões postais para ninguém e queimam todos eles em seguida; divertem-se com um jogo de troca de camisas, derramam cerveja ou espalham sorvete pelo corpo inteiro. No avião sem piloto, as crianças sonham que são alegres um tempo inteiro que dura só a metade do filme.

 

A última estrada da praia de Fabiano de Souza

Primeiro longa-metragem de Fabiano de Souza, livre adaptação de O louco de Cati, romance de Dyonélio Machado escrito em 1942, A última estrada da praia, divide-se em dois tempos. Bem na metade da história, o sonho com a praia cede lugar ao pesadelo que persegue o personagem sem nome e sem qualquer fala desde a primeira cena – ele parece fugir de um carro com uma luz vermelha e a sirene ligada. De repente, as crianças passam a sonhar que são infelizes o tempo inteiro. Os três amigos se separam num briga sem razão precisa: porque Leo gostava de sua camionete? porque Norberto achava absurdo gostar de um carro e nem sequer dar um nome para ele? porque uma luz vermelha acendeu no painel do carro?


Fim da praia, é preciso traçar um plano para o que nasceu para não ter plano algum. Fim da linha, Leo e Paula querem voltar. Norberto responde com uma nota que não vale nada: quer ir adiante, até o posto de gasolina – quem sabe? – depois da curva. Leo e Paula querem voltar, não há mais nada adiante. Norberto fica com o desconhecido, falando sozinho, lambuzando-se de leite condensado, abrindo portas que saem do nada para coisa alguma, repetindo, com aquele mesmo tom de voz usado para comentar a esquisitice do sonho do avião, ao mesmo tempo para o desconhecido e para si mesmo: “tu é um cara que se perdeu, viajou, e agora está livre”.

 

A história construída como uma fuga, como um labirinto ou beco sem saída, empurra os personagens todo o tempo de volta ao ponto de partida que é também o fim da linha: o carro de luz vermelha e sirene estridente corre atrás do desconhecido para perguntar como chegar à estrada da praia para – quem sabe? – perder-se, nunca mais se achar, sonhar que é feliz o tempo inteiro, acordar coberto de areia com uma nota que não vale nada, pegar na estrada um avião que para voar nem precisa de piloto.

 

 

 

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