A grande angular de Thomaz

 

Quando conheci Thomaz Farkas, na metade da década de 1960, depois de uma sessão especial de Viramundo e de Memória do cangaço na Cinemateca do MAM, trazia minha Leica 3F. Ele logo percebeu a câmera, meio escondida por baixo do ombro, e começamos a falar de fotografia.

A 3F estava bem escondida, a lente fechada, a câmera colada ao corpo, quase impossível de se notar, mas chamou a atenção de Thomaz, creio, entre outros motivos, porque então o que se usava eram câmeras reflex, com teleobjetivas, lentes zoom e grandes angulares muito abertas que se montavam rápidas no corpo da câmera por meio de baionetas. Já quase estavam fora de uso as antigas câmeras de visor lateral e lentes de rosca. A 3F, que comprei usada, era uma câmera fabricada 30 anos antes. Assim, na porta do cinema, começamos a falar de fotografia. Devo ter comentado minha satisfação com o jeito discreto e silencioso da Leica e com a boa definição da Elmar 50mm f. 3.5 e sobretudo devo ter mencionado mas que estava em busca de uma grande angular. Devemos ter comentado ainda a latitude do Tri-X, e o uso do D-76 ou do velho Rodinal para conseguir imagens de bom contraste mesmo com pouca luz. Falamos de fotografia até que naturalmente a conversa saltou para os documentários de Geraldo Sarno e de Paulo Gil Soares. Provável que tenhamos partido do paralelo que se costumava fazer então: Viramundo e Memória do cangaço estabeleciam um diálogo espontâneo com Vidas secas de Nelson e Deus e o diabo na terra do sol de Glauber.

Antes de passar da fotografia para os filmes, uma promessa feita a meia voz que guardei/apaguei num canto da memória – “deixe, vou conseguir uma grande angular para você”. Só revelei e fixei o que Thomaz me disse naquela ocasião semanas mais tarde, quando recebi dele uma Elmar 35 mm f. 3.5 para minha velha Leica.

Mas, de fato, só bem mais tarde revelei e fixei esse gesto de cumplicidade e amizade. Só bem mais tarde, – ao rever os documentários da série A condição brasileira reunidos nos sete dvds da caixa Projeto Thomaz Farkas – a pequenina história da grande angular me pareceu uma precisa imagem do trabalho de Thomaz. Como fotógrafo, produtor e realizador de filmes, ele nos deu uma grande angular. A sensação é ainda mais forte agora que ele se foi. Ele nos deixou, como herança, uma grande angular, um cinema que aumentou o nosso campo de visão, que produziu imagens como as que uma grande angular produz: maior campo de visão, maior profundidade de foco. Thomaz nos deixou de presente um gesto, parece, inspirado no jeito discreto das 3F e no tamanho pequenino das Elmar 35mm para abrir os nossos olhos para o cinema documentário e, por meio dele, para o tempo em que vivemos.

 

 

 

 

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Juízo, de Maria Augusta Ramos

> A câmera lúcida
nota sobre Juízo de Maria Augusta Ramos

 

> 2 ou 3 coisa sobre um verão em Paris
nota sobre Chronique d‘un été de Jean Rouch e Edgar Morin

 

> O acidente do pintor
nota sobre Acidente de Cao Guimarães

 

> O artista e seu modelo

nota sobre três filmes realizados em torno da relação entre cinema e pintura: dois documentários, Le mystère Picasso de Henri-Georges Clouzot e El sol del membrillo de Víctor Erice e uma ficção entrecortada por imagens feitas à maneira de um documentário, La belle noiseuse de Jacques Rivette.

 

> Auto-retrato com a cara do outro

nota sobre Um passaporte húngaro, de Sandra Kogut

 

> O Brasil por conta de nós próprio
nota sobre O fio da memória de Eduardo Coutinho

 

> O cinema (e a primeira vítima da guerra, a) verdade
nota sobre Veillès d'armes de Marcel Ophuls

 

> O cinema pinta, a pintura filma

imagens de Le mystère Picasso de Henri-Georges Clouzot

 

> Conversa indisciplinada,
dois filmes de 1984, Cabra marcado para morrer de Eduardo Coutinho e Memórias do cárcere de Nelson Pereira dos Santos, vistos como a realização do que os diretores começaram a sonhar vinte anos antes, Nelson pouco depois de filmar Vidas secas, Coutinho ao iniciar a reconstituição do assassinato do líder camponês João Pedro Teixeira .

 

> Crônica de um despertar de verão
nota e seqüência de imagens do instante em que um operário desperta para trabalho em Chronique d‘un été de Jean Rouch e Edgar Morin

 

> Os dois sóis do marmelo
nota e seqüência de imagens sobre El sol del membrillo de Víctor Erice

 

> O fim e o começo de tudo.
nota sobre Boca do lixo de Eduardo Coutinho

 

> O grande mergulho

nota sobre A bigger Splash de Jack Hazan

 

> Iluminismo
nota sobre Let there be Light de John Huston

 

> Le maître fou do cinema-verdade
conversa com Jean Rouch

 

> Memórias do cárcere
O prisioneiro da grade de ferro de Paulo Sacramento e a prisão no documentário e na ficção como metáfora da condicão brasileira

 

> Objetivo subjetivo
nota sobre a presença de uma vontade documentária na pintura antes do cinema e sobre a subjetividade do realizador como o verdadeiro objetivo do cinema documentário – Nelson Freire de João Moreira Salles, A Bigger Splash de Jack Hazan e Di Cavalcanti de Glauber Rocha como exemplos.

 

> A pintura na cabeça e a câmera na mão

nota e seqüência de imagens sobre a fusão entre documentário e ficção nos trechos de La belle noiseuse de Jacques Rivette em que as mãos do pintor Bernard Duffour desenham e pintam os trabalhos do personagem interpretado por Michel Piccoli, Edouard Frenhoffer.

 

> Pina

nota sobre o documentário de Wim Wenders sobre Pina Bausch

 

> Pior que saber, só não saber
nota sobre Condor, de Roberto Mader

 

Nelson Freire de João Moreira Salles

> Planejando o acaso
conversa com João Moreira Salles em torno de Nelson Freire, Notícias de uma guerra particular, Jorge Amado, Santa Cruz e O vale

 

> A regra do jogo
nota sobre Jogo de cena de Eduardo Coutinho

 

> O sonho antes do sonho
nota sobre Todo esto me parece un sueño de Geraldo Sarno

 

> O vazio do quintal
conversa com Eduardo Coutinho sobre Santo forte

 

 

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