Inglaterra, 1964, propriedade dos Herbert. O marido planeja uma
viagem de negócios, a mulher planeja presenteá-lo com uma série de desenhos que irão retratar a casa e o amplo jardim em volta e para convencer o desenhista a realizar o trabalho propõe um contrato singular: além do pagamento pelos desenhos
ele terá também casa, comida e a companhia dela no quarto de dormir
até o dia em que o marido retorne
da viagem e os desenhos estejam concluídos.
The Draughtsman’s Contract de Peter Greenaway (1982) avança em torno desta trama, atento aos cuidados especiais à redação dos termos do contrato e, adiante, à proposta de inclusão de um aditivo, ditado pela filha dos Herbert, em participar da cláusula relativa ao quarto do desenhista proposta pela mãe.
A ironia e a elegância da narração conferem um interesse especial aos instantes em que em quadro vemos o visor usado pelo desenhista para compor um quadro.
O visor é uma representação do contrato do desenhista, da redação
que sem dizer tudo revela também o que se afirma nas entrelinhas, pela sugestão de que no quadro, na estrutura da composição do texto, se encontra também subentendido o que está fora dele. E ao mesmo tempo,
o visor é uma representação do olhar. Do desenhista. Do diretor do filme.
Do espectador. De uma sensibilidade que firmou com a realidade imediatamente visível um contrato
não muito diferente daquele entre a senhora Herbert e o desenhista.
Assim, a história de The Draughtsman’s Contract é de fato uma linha tênue que conduz um conjunto de imagens em que o olho do desenhista enquadra a paisagem através do visor e a mão traça a lápis em papel quadriculado o que ele vê – o que parece importar de fato são estes instantes em que vemos a mão do desenhista correr no papel e em que o quadro nos mostra o instrumento de compor quadros como gestos musicais, como dança feita para a música de Michael Nyman.
Enquanto passeia pela história do desenhista Neville, da senhora Herbert e de sua filha, a senhora Talman, Greenaway propõe ao espectador uma conversa sobre o contrato que o cinema estabelece com a realidade.
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