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Os filmes em competição no 63º Festival de Berlim:
O cavalo de Turim / A Torinói Ló, quarto do húngaro Béla Tarr, Contos noturnos / Les contes de la Nuit, terceiro do francês Michel Ocelot, e Doença do sono / Schlafkrankenheit, terceiro do alemão Ulrich Köhler, foram as exceções de um programa composto de primeiros e de segundos filmes.
Filmes de estréia:
o turco Nosso grande desespero / Bizim Büyük Çaresizligijiz, de Seyfie Teoman; o inglês Coriolanus, de Raph Fienes; o mexicano/argentino O prêmio / El premio de Paula Markovitch; o alemão Quem, se não nós? / Wer wenn nicht wir de Andres Veiel; o norte-americano Chamada inesperada / Margin Call de J.C. Chandor; e o também norte-americano Gritando para o ceu / Yelling to the Sky,
de Victoria Mahoney.
E segundos filmes:
Nader e Simin, uma separação / Jodaeiye Nader az Simin, do iraniano Ashgar Farhadi; Batom / Odem do israelense Jonathan Segall; Vem a chuva, vem o sol / Saranghnda, Sharanghai anneunda, do coreano Lee Yoon-ki; Perdão de sangue / The Forgiveness og Blood do norte-americano Joshua Marston; O futuro / The future, da norte-americana Miranda July;
Um mundo misterioso / Un mundo misterioso do argentino Rodrigo Moreno; e Um sábado comum / V subbotu do russo Alexander Mindadze.]


O cavalo de Turim, de Béla Tarr, Prêmio Especial do Juri de Berlin
Nos três principais prêmios do júri oficial de Berlim encontra-se um preciso resumo do festival: Nader e Simin, uma separação / Jodaeiye Nader az Simin, de Asghar Farhadi, Urso de Ouro; O cavalo de Turim / A Torinói Ló, de Béla Tarr, Prêmio Especial do Júri; e Perdão de sangue / The Forgiveness of Blood, de Joshua Marson, Urso de Prata, não foram apenas os destaques da mostra competitiva como também os filmes que melhor realizam o que o programa da Berlinale, parece ter identificado como a questão central do cinema de agora: o confronto entre a herança da literatura e do teatro, entre o que o filme reinventa sem fugir à tradição e o que procura contar histórias (digamos assim: desdramatizadas) em que não se passa nada especialmente significativo, pelo menos na aparência primeira.
Dentro de uma moldura formada pela retrospectiva de Ingmar Bergman, com os filmes exibidos em cópias novas, e pela presença das recentes experiências em 3D de Werner Herzog, A caverna dos sonhos esquecidos / Cave of Forgotten Dreams, e de Wim Wenders, Pina, um filme dançado diretamente inspirado nas coreografias de Pina Bausch, o festival exibiu filmes de novos realizadores. Berlim, que tradicionalmente abre espaço para novos realizadores, esse ano radicalizou tal tendência: 13 dos 16 títulos em competição eram de diretores estreantes ou que realizavam seu segundo longa-metragem.
Filmes de novos diretores e com personagens que não querem ou não sabem como agir, que caminham sem rumo certo e terminam por retornar ao ponto de partida – nova sensibilidade do tempo da internet? O cinema em busca de uma nova identidade? perguntou-se o festival. “Estamos vivendo um período de mudanças”, disse o diretor da Berlinale, Dieter Kosslick, na abertura do programa. “Por isso procuramos nos concentrar na descoberta de novas tendências no cinema mundial, do 3D às experiências de formas narrativas. É claramente visível nos filmes a preocupação com a alienção dos jovens de hoje e o permanente auto-questionamento: personagens perto dos 30 anos buscam uma redefinição”.
Duas histórias em torno de um gato podem servir de exemplo.
Em Vem a chuva, vem o sol / Saranghanda, Saranghaji annuenda, de Lee Yoon-ki, a mulher decide abandonar o marido numa longa e lenta conversa dentro de um carro em movimento. Depois, longo tempo de espera dentro de casa. Ela, em silêncio, separa o que vai levar. Ele, em silêncio, procura evitar que as goteiras destruam suas fotos e danifiquem o computador. O amante telefona, pronto para ir buscar a mulher, mas chove forte, as ruas estão alagadas, ela acha melhor que ele não venha logo e espere a chuva passar. Ação de verdade, só numa espécie de entreato: um filhote de gato entra na casa do casal que separa para fugir da chuva e se esconde num canto qualquer. Quando o gato finalmente reaparece, o filme termina. A mulher parece não saber sequer sair de casa, o homem continua a enxugar as fotos atingidas pelas goteiras.
No começo de O futuro / The Future, da norte-americana Miranda July, também com uma longa e lenta conversa de casal: no sofá, cada um em seu computador, eles decidem trabalhar menos e adotar um gato enfermo para mudar de vida. No veterinário eles são informados de que o gato deverá ficar ainda alguns dias hospitalizado. E então, sem o gato – que na realidade é quem nos conta a história do casal – a mulher telefona para um número que descobre ao acaso. Do outro lado, uma voz masculina. Em pouco tempo eles se tornam amantes e ela decide abandonar o marido. Mais tarde, com um mesmo tom indiferente e mecânico, ela abandona o amante e volta para casa. Vai com o marido ao veterinário em busca do gato, mas descobre que ele morreu pela falta de cuidados de seus donos adotivos. O casal volta à vida de antes.
Em Um mundo estranho, de Rodrigo Moreno, nem mesmo um gato. Apenas um casal que no começo do filme decide se separar numa conversa feita de quase nenhum gesto e de frases recitadas em câmera lenta, como nos filmes de Yoon-ki e de July, e que reúne ao acaso no final porque o homem, sem ter o que fazer, volta para casa e a mulher, pelo mesmo motivo, aceita seu retorno.
Para que essas breves sinopses ajudem a perceber o que de verdade se passa, que esses filmes, mais do que um casal que se separa ou gato, têm em comum um mesmo estilo narrativo, convém tomar o título de um dos filmes alemães da competição como uma imagem crítica : A doença do sono / Schlafkrankenheit. Convém tomar não o tema do filme de Ulrich Köhler – um médico alemão abandona mulher e filha para ficar na África a pretexto de combater uma epidemia da doença do sonho. Importa aqui apenas o título como uma imagem verbal dos muitos filmes que, em Berlim, contaram histórias de personagens que se movem como vítimas da doença do sonho por meio de um câmera, ela também, vítima desse mesmo mal.
Mas nem tudo foi sono. Aqui e ali, também um sonho.


Nader e Simin, uma separação de Ashgar Farhadi
À primeira vista tudo é absolutamente igual no começo de Vem a chuva, vem o sol e de Nader e Simin, uma separação. O mesmo desenho do plano: um casal num espaço interior, plano médio, a mulher à esquerda, o homem à direita, estão de frente para a câmera. A mesma situação dramática, a mulher quer se separar do marido. Mas a semelhança termina aí. No primeiro filme o diálogo é recitado de modo frio por personagens que quase não se movem. Eles estão num carro a caminho do aeroporto, passam por túneis e viadutos, por áreas de luz e de sombra. No segundo, o casal está diante do juiz, que, fora do quadro, se encontra na posição da câmera. O casal está numa audiência para obter o divórcio. O plano é fixo, a luz não se altera, mas tudo se move na imagem do ponto de vista dramático: as falas e os gestos se atropelam, a mulher quer sair do país para mudar de vida, o marido não quer abandonar o pai doente nem quer que a mulher leve a filha com ela. No primeiro, no filme coreano, talvez o esboço de uma construção desdramatizada ainda não de todo elaborada. No segundo, no filme iraniano, o domínio, mais que isso, a excelência de uma construção cinematográfica já conhecida. No primeiro, algo como uma bem assimilada lição do neorrealismo italiano. No segundo, algo como uma compreensão equivocada da lição do cinema de Robert Bresson.
O diálogo/desafio entre essas duas formas de composição talvez se perceba melhor num paralelo entre os dois outros filmes destacados pelo júri oficial da Berlinale. De um lado, O cavalo de Turim, que o húngaro Béla Tarr dirigiu inspirado num fato real da vida de Friedrich Nietszche (ele abraçou o pescoço de um cavalo que não queria se mover para evitar que ele continuasse a ser chicoteado pelo cocheiro). Tarr realiza por inteiro o que os muitos filmes quase sem histórias exibidos em Berlim perseguiram sem sucesso. O que de verdade se move em seu filme é o essencialmente cinematográfico: o desenho do quadro, a luz e a textura da imagem em preto e branco. História, quase nenhuma: pai e filha isolados numa casa no meio de um tempestade tentam sair de casa, mas o velho cavalo já não tem forças para puxar a carroça. Fechados em casa, sentam-se à mesa para comer batatas ou diante da janela para ver a tempestade lá fora. História, quase nenhuma. No lugar de uma história, e mais forte que ela, uma imagem que traz da tradição das artes visuais, em especial da gravura, um modo de se expressar puramente pela imagem.
De outro lado, Perdão de sangue, que o americano Joshua Marson filmou na Albânia, inspirado numa história de guerra de famílias próxima daquela contada por Ismail Kadaré em Abril despedaçado. Como em seu filme anterior, Maria cheia de graça / Maria Full of Grace (2004), o diretor fez o roteiro inspirado em fatos verdadeiramente acontecidos e trabalhou com atores não profissionais. O resultado é um meio termo entre o expressionismo de Béla Tarr e o neorrealismo de Asghar Farhadi. Talvez seja possível dizer que Perdão de sangue tenta algo assim como contar a história de Nader e Simin, uma separação à maneira de O cavalo de Turim.
Assim, entre Bergman e a terceira dimensão de Pina, Tarr, Marson e Farhadi foram os melhores filmes do festival. Há pouco mais de dez anos, ao conferir a Central do Brasil, de Walter Salles, o Urso de Ouro de melhor filme e o Urso de Prata para Fernanda Montenegro, Berlim concedeu pela primeira vez dois prêmios principais a um único filme. Agora, com Nader e Simin, uma separação, a Berlinale entrega pela primeira vez três de seus prêmios principais a um mesmo filme: o Urso de Ouro, o Urso de Prata de melhor ator, e o Urso de Prata de melhor atriz - os dois prêmios divididos pelo conjunto de intérpretes masculinos e femininos. É o segundo longa-metragem de Asghar Farhadi. O anterior, A proposito de Elly / About Elly, recebeu um Urso de Prata em 2009. E, como não acontecia desde Central do Brasil, Nader e Simin, uma separação teve uma quase unânime aceitação do júri oficial, do público e dos críticos reunidos em Berlim.
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