Mutum, de Sandra Kogut

 

Mutum, de Sandra Kogut

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tropa de elite de José Padilha

 

 

 

 

Cinema popular

 

Mutum, de Sandra Kogut: nas grandes cidades, “filme de arte” (talvez porque inspirado em Guimarãs Rosa, e porque não conta com atores famosos nem com uma trilha musical para sublinhar damaticamente as imagens); no interior, nas regiões vizinhas daquelas em que foi filmado, em cidades que não contam com salas de cinema, em exibições em praças públicas, “filme popular”.

 

Na Mostra de Cinema de Belo Horizonte (31 de outubro a 6 de novembro de 2007), “tradições e contradições do cinema popular” em debate. Na mesa, a meu lado, Inácio Araújo, Hernani Heffner e Daniel Caetano. No catálogo da mostra, dois textos que se unem pela coincidência de trazer uma interrogação no título: um de Cléber Eduardo – O que e qual é nosso cinema popular? –, outro de Heffner – Cinema popular? –  são um ponto de partida para uma pergunta mais ampla: o cinema ainda é popular? O cinema, não apenas a experiência brasileira mas o cinema como um todo, hoje, ainda é uma diversão popular? Popular assim como foi no tempo (metade do século vinte) dos programas duplos de quatro ou mais horas de duração, com dois filmes de longa-metragem, cinejornais e desenhos de curta-metragem? Como no tempo em que as sessões-surpresa reuniam um público numeroso para ver um filme de que não se sabia sequer o título? É a televisão que hoje ocupa o imaginário popular que foi do cinema?. O cinema é fundamentalmente popular? Discutir cinema popular subentende a aceitação do contra-campo, um cinema impopular? 

 

A discussão não difere muito da que se faz em outros meios de expressão artística. Popular: expressão artesanal ou artística? Expressão coletiva ou autoral? Ausência de estética ou um outro princípio estético?. Mas talvez nas outras artes o popular é principalmente o trabalho realizado direta e num processo quase artesanal pelas camadas populares da sociedade e não, como no cinema, produzido industrialmente para atender o gosto popular. E entre nós, no campo do cinema, a discussão parece ter partido de um equívoco: o popular (o que é? como é? o maior interesse do público por um filme?) foi tomado como um conceito ou padrão de qualidade: se é popular é bom, se não é popular não é cinema. O popular, então, tomado em oposição ao que, por não ter qualidade, não se comunica com esta coisa indefinida que se convencionou chamar de o grande público.

 

Talvez o equívoco tenha se formado no começo da década de 1960, com a proposta de montar conflitos: fazer um cinema popular mas não filmes para consumo popular; um cinema político mas não filmes para um partido político; uma indústria de cinema mas não para produzir filmes industriais. Ao lembrar a experiência de Rio, 40 Graus (1954) e Rio, Zona Norte (1957) Nelson Pereira dos Santos resumiu esta proposta (em depoimento para o Cineclube Macunaíma em 1975, texto que recebeu como titulo Manifesto por um cinema popular): “cinema popular não quer dizer fazer filmes para ensinar alguma coisa ao povo, mas ao contrário fazer filmes ao lado do popular para aprender com ele como fazer cinema”.

 

O equívoco inicial, tomar o modelo de produção mais altamente consumido como padrão de cinema popular, ganhou novas proporções porque mesmo este cinema feito para ensinar coisas ao povo pouco a pouco deixou de ser uma diversão popular, e não apenas pelo constante aumento do preço do ingresso. O preço da entrada de cinema é sem dúvida um limitador, mas não o único e nem mesmo o principal. Outra e mais importante causa da redução de público das salas de projeção é o que aparentemente garante hoje a rentabilidade (popularidade?) do cinema: o controle quase absoluto do espaço (produção, exibição, televisão, pontos de promoção e eventuais discussões críticas) pelos produtos de Hollywood tirou das salas de exibição todo espectador interessado em diferentes modos de fazer filmes. O que foi um dia um espetáculo apreciado por gentes de todos os gostos reduziu-se a uma diversão para toda a gente de um só gosto padronizado.

 

O aparecimento de novos mercados e de um público numeroso para filmes fora das tradicionais salas de projeção (tv, dvd, internet, computadores de mão, celulares), contradiz apenas na aparência o fato de que o cinema deixou de ser uma expressão popular. Hoje os grandes públicos se reúnem em torno de poucos filmes e não em torno dos filmes de um modo geral. Mesmo no tempo em que os filmes só eram vistos nos cinemas e em que os cinemas viam sempre um público numeroso, o bom resultado econômico de uma produção não era um sinal da popularidade do cinema e sim um indicador do poder de determinado centro de produção sobre o mercado. O cinema foi uma diversão popular porque quase todo mundo ia aos cinemas para ver quase tudo quanto era filme. As grandes bilheterias de hoje apenas confirmam que o cinema deixou de ser uma diversão popular para garantir o lucro crescente dos investimentos dos grandes centros de produção do audiovisual. O cinema deixou de ser popular graças aos erros estratégicos do modelo industrial de produção e difusão concentradas. Para garantir maiores rendas, a parcela da produção que sempre se apresentou como o legítimo cinema popular (o filme produzido pelos centros economicamente mais fortes) decretou o fim do cinema como diversão popular.

 

Entre nós, por exemplo: um erro de interpretação dos os grandes grupos de produção e distribuição contribuiu decisivamente para fechar salas de bairros e de pequenas cidades na metade da década de 1980: com a chegada da televisão e do vídeo doméstico Hollywood decidiu concentrar os lançamentos em poucas salas e nas capitais como vitrine para a exploração comercial que, acreditava-se, daí em diante se deslocaria das salas de cinema para o vídeo e para a tv. Sem tela, os espectadores se transferiram para a televisão e não perderam o hábito de ir ao cinema quando, reconhecido o erro, a indústria partiu em busca do templo perdido.

 

Uma vez identificado o equívoco de renunciar às salas, um segundo erro de interpretação com início da reabertura de cinemas em larga escala: Hollywood passou a produzir quase exclusivamente filmes para um público jovem (adaptações de histórias em quadrinhos ou de videogames com muita ação e violência visual) como estratégia para recuperar os cinemas perdidos na década de 1980. Tratava-se de concentrar a produção num determinado segmento (o cinema não como uma diversão popular, mas como um produto dirigido de modo intensivo a uma determinada faixa de consumidores), o adolescente como o espectador capaz de reverter a gradual redução de público interno, tradicionalmente responsável por um percentual de renda superior àquele que os filmes norte-americanos recebiam dos mercados internacionais, tendência que agora se inverte.

 

Assim, especialmente mas não exclusivamente entre nós, dez anos depois da radical eliminação dos circuitos de salas populares na metade da década de 1980, novas salas passaram a ser construídas com um novo desenho – no duplo sentido de decoração e de modo de organizar o negócio de distribuição e exibição. Salas diferentes para atender às características da nova linha de produção (e do público a que ela se dirigia) com eficácia idêntica à dos tradicionais palácios feitos para todo e qualquer espectador de baixa renda, com tapetes, lustres, espelhos e escadarias que preparavam o ambiente em que se desenrolavam os melodramas, os musicais, as aventuras heróicas e românticas (e eventualmente alguns filmes “impopulares”) produzidos então. Na nova decoração para um espectador adolescente, algo de vitrine de loja – ou melhor, algo daquela área que os shoppings chamam de praças de alimentação, o filme quase só um complemento do consumo de pipocas e refrigerantes. O cinema passou a se colocar à espera não exatamente de um espectador mas de um consumidor; ou, se à espera de um espectador com toda certeza não à espera de um espectador popular e exclusivamente dedicado ao cinema. Ver um filme se transformou num complemento ou preparação de uma ida ao shopping.

 

Convém repetir para não nos afastarmos do essencial: o cinema produzido para consumo popular acabou com o cinema popular. Talvez não sozinho, talvez com a cumplicidade ativa ou passiva de outros parceiros, mas ele à frente.

 

O mercado mundialmente preparado para servir a Hollywood, com o produto de Hollywood tomado como paradigma do filme popular para todos os mercados, as cinematografias nacionais passaram a ter uma existência impopular quando não se reduziram a imitações ou parábolas do modelo dominante. O que não imita o modelo hegemônico é prontamente acusado de incapaz de se relacionar com o público. Num espaço fundamentalmente hostil à presença de qualquer expressão diferente daquela produzida pelos centros de controle do mercado, a real possibilidade de invenção de uma forma ou modo de produção popular, qualquer coisa que se esboce nesta direção, é uma ameaça à boa ordem financeira do poder cinematográfico. E pensar com os termos propostos pelo poder conduz a conversa sobre cinema popular à conclusão de que os cinemas nacionais, ou porque intelectuais e herméticos, ou porque imperfeitos e tecnicamente pobres, são essencialmente impopulares. 

 

Mas se existe de fato uma expressão cinematográfica popular hoje, no sentido de produto que gera formas a partir de uma experiência viva; se existe um cinema popular, no sentido de expressão que atua de modo quase subversivo e clandestino num mercado que lhe é francamente hostil e dialoga de modo espontâneo com um público (não importa de que dimensão) que prefere vê-lo apesar dos apelos vigentes para o consumo do modelo hegemônico; enfim, cinema popular de verdade só os cinemas nacionais que se fazem longe de Hollywood e quase sempre longe das grandes platéias  – o cinema brasileiro entre eles, ele como um todo e bem em particular aquela parte dele que consciente ou não segue a sugestão de Mário de Andrade em carta para Carlos Drummond de Andrade: forçar a fala brasileira; logo nos acostumamos com ela. O que talvez ainda possa ser chamado de cinema popular existe hoje para poucos espectadores ou não existe – o que é mais provável. Número de espectadores e renda traduzem apenas um bom ou um mal negócio. A sobrevivência de modelos próprios é difícil. O espaço para uma invenção de modelos populares, mais ainda. O encanto e a absoluta novidade do meio em si já não existe – já não vamos indistintamente ao cinema, como no tempo em que imagens e sons em movimento eram uma novidade e em que não existia um divórcio entre a qualidade cinematográfica de um filme e a quantidade de espectadores que ele conseguia reunir.

 

Para atender ao poder do audiovisual, o cinema deixou de ser uma diversão popular. Ou então, impedido de existir em liberdade, o popular passou a se manifestar na clandestinidade, como na recente explosão de cópias piratas de Tropa de elite de José Padilha, um dos raros exemplos em que uma (sem dúvida distorcida) manifestação popular fez com que o filme se tornasse um êxito absolutamente incomum antes mesmo de se concluir, antes mesmo de começar a divulgar sua existência. Um sinal meio torto de que o cinema ainda é uma diversão popular?


Outro possível sinal está no comportamento dos espectadores diante de Mutum de Sandra Kogut, está na diferente reação que a diretora observou entre o público que nos grandes centros urbanos vê o filme nos cinemas e o que, afastado das grandes cidades, se reúne para projeções ao ar livre em centros que já não contam com salas de projeção, ou em pequenas cidades que jamais conheceram uma sala de cinema.

 

“Para um certo publico urbano”, diz Sandra, “talvez principalmente para exibidores e distribuidores o filme é considerado um filme de arte”, porque não conta com nenhum dos apelos usados para criar interesse do público que vai ao cinema, nenhum sinal do que o mercado costuma identificar como “filme popular”, como produto capaz de atrair muitos especadores – nem atores conhecidos, nem música “e além disso, o filme circulou por festivais e ganhou prêmios em alguns deles”. No interior, ao contrário, em cidades sem cinemas, nas sessões em praças públicas organizadas por pessoas que colaboraram na fase de pesquisa e preparação do filme, Mutum é recebido como um filme popular. “Essas sessões lotam, as pessoas vêm das zonas rurais. Eles estão tendo que multiplicar as sessões, e fazê-las em vários lugares. Um pequeno circuito espontâneo está se formando, numa região onde as pessoas se locomovem com dificuldade. Um público de trabalhadores rurais vibra com o filme! Nos debates, falam coisas incríveis, surpreendentes. Eu agora tenho certeza de que se ainda existisse cinema no interior do Brasil esse filme seria um sucesso. As pessoas se reconhecem nele”.

 

Duas pequenas indicações de que ao contrário do que dissemos aqui o cinema ainda é ou pode voltar a ser uma diversão popular e de que bem de acordo com o que dissemos aqui o cinema deixou de ser popular para garantir boas rendas para a parcela da produção que controla o mercado .

 

 

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