Ainda Lumière

[Rio, 13 de outubro de 2007]

 

Ainda orangotangos, de Gustavo Spolidoro

Ainda orangotangos, de Gustavo Spolidoro

O começo de Ainda orangotangos de Gustavo Spolidoro: um travelling feito da janela de um rem; no meio do movimento a câmera passa pelo título do filme pintado num muro; adiante, esquece a janela e se desloca para dentro do trem.

Ainda orangotangos, de Gustavo Spolidoro

 

Ainda orangotangos, primeiro longa-metragem de Gustavo Spolidoro, prossegue e amplia a experiência de seus primeiros filmes de curta-metragem, feitos com um único plano em que a câmera se movimenta quase todo o tempo e passa por diversas situações: Velinhas (1998, cerca de dez minutos de duração) e Outros (2000, cerca de quinze minutos de duração).

 

De novo um único plano em que a câmera se movimenta na mão do fotógrafo por diversas situações e diferentes personagens, mas agora com a duração de pouco mais de 80 minutos.

 

Quando daqui a pouco o filme de Spolidoro começar a ser exibido comercialmente – ele apenas se apresentou em sessão especial no Festival do Rio – será, talvez, o momento de ver esta vontade de esticar ao tempo de um longa-metragem a experiência de compor planos seqüências em perspectiva e diante dos recursos surgidos com o equipamento digital.

 

Em perspectiva: buscar o caminho que sai de Festim diabólico (Rope, Alfred Hitchcock, 1948, que por meio de soluções de cenografia e de iluminação constrói artificialmente um plano único num instante em que não existiam condições técnicas para filmar, e nem para projetar sem interrupções, sem troca de projetores na cabine, um plano com a duração do filme, 80 minutos).

 

Passar por Gare du Nord de Jean Rouch, um só plano na aparência com pouco mais 15 minutos, episódio de Paris vu par, 1965. Passar ainda pelos planos de mais ou menos dez minutos de duração de Miklós Jancsó (Sem esperanças, Szegénylegények, 1966; Vermelhos e brancos, Csillagosok, katonák, 1967; Querida Electra, Szerelmem, Elektra, 1974); de Michelangelo Antonioni (o que conclui Profissão: repórter, Professione: reporter,1975), e de Theo Angelopoulos, (o que inicia A viagem dos comediantes, O Thiasos, 1975); examinar La tarea de Jaime Humberto Hermosillo, 1991 (plano de 85 minutos feito em vídeo com uma única posição de câmera); examinar A arca russa, Russkiy kovcheg, 2002, de Alexander Sokurov (plano de quase 100 minutos que se move num único cenário, mas em mais de trinta diferentes espaços e em meio a quase 200 personagens).
 

Ainda orangotangos, de Gustavo Spolidoro

Ainda orangotangos, de Gustavo Spolidoro

O que começou na paisagem vista da janela de um trem, depois de um caminho sinuoso, que sobe e desce escadas, entre e sai de edifícios, Ainda orangotangos chega em sua seqüência final a uma festa de aniversário tumultuada com a chegada de um visitante inesperado, o namorado da aniversariante.

 

De um extremo (Festim diabólico procura ampliar a ilusão de realidade da imagem: dá ao espectador a sensação de ver a ação em continuidade e tempo real) a outro (A arca russa procura deslocar o espectador da aparência primeira da imagem para que ele dê uma volta na história russa em 80 minutos) o cinema produziu um conjunto de experiências que se encaminham para este gesto que hoje tende a se repetir com freqüência: o plano muito longo, o filme de um plano só. Graças à câmera digital de hoje e ao hábito de filmar com a câmera na mão desde a década de 1960.

 

Nas experiências mais recentes, como esta de Spolidoro, uma nova oportunidade de investigar o que continua a alimentar esta vontade de estender, ampliar, sofisticar a forma de narração dos filmes de Lumière; o que estimula a realizar uma inesperada junção da câmera digital de hoje com o Cinematógrafo, a câmera que, há pouco mais de cem anos, numa rua de Lyon hoje chamada de Rua do Primeiro Filme, filmou num plano de mais ou menos um minuto, o primeiro filme da história do cinema: A saída dos operários da fábrica.

 

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