O ouvidor

[Rio, 8 de dezembro de 2007]

Urich Mühe, A vida dos outros, de Florian von Donnersmarck Ulrich Mühe, A vida dos outros de Florian von Donnersmarck

 

A história que A vida dos outros (Das Leben der anderen, de Florian Henckel von Donnersmarck, 2006) nos conta é aquela mesma o cinema alemão contemporâneo tem repetido de modos diferentes em diversos filmes – e neste mesmo cenário especial em que se concentram as lembranças do país dividido e das contradições que surgiram com a reunificação: o muro de Berlim. Em torno dele temos aqui mais uma vez uma história em que a ordem absoluta da sociedade se volta para um absoluto controle do cidadão.

 

Na Berlim de um pouco antes ou um pouco depois da queda do muro, Passeio noturno (Wege in die Nacht de Andreas Kleinert, 1999), O silêncio depois do tiro (Die Stille nach dem Schuss de Volker Schlöndorff, 2000) e Adeus Lenin! (Goodbye, Lenin!, de Wolfgang Becker, 2003), cada um a seu modo,  o último deles trocando o drama pela ironia, uma análise dos diferentes ângulos da questão. Contam uma história não muito distante da que Uma mulher contra Hitler (Sophie Scholl, der letzten Tage, de Marc Rothemund, 2005) deslocou para o passado – maio de 1943, o nazismo ainda no poder – e para outro espaço, Munique em lugar de Berlim; No filme de Rothemund uma jovem estudante que espalha panfletos contra Hitler no pátio de sua escola é identificada, presa e condenada à morte por conspirar contra o estado.

 

Pegar na memória alguns títulos da década de 1970 e 1980 – por exemplo: Ordem (Ordnung de Sohrab Shaid Saless, 1980) Os anos de chumbo, (Die Bleierne Zeit, de Margarethe von Trotta, 1981), Stammheim de Reinhard Hauff (1986) ou ainda o último Fassbinder, O desespero de Veronika Voss (Die Sehnsucht der Veronika Voss, 1981) – é o bastante para lembrar como a questão discutida em A vida dos outros retrata um dos grandes fantasmas da vida alemã: sentir-se fechado dentro de um muro intransponível (como aquele que Fritz Lang mostra em A morte cansada, Der Müde Tod, 1921) e absolutamente controlado (por um sistema como aquele que Alexander Kluge mostra em Ferdinando, o radical, Der Starke Ferdinand, 1976).

Ordem | Ordnung, de Sohrab Saless

Ordem, de Sohrab Shaid Saless

 

Um trabalhador sonâmbulo, em delírio, desperta no meio da noite e sai para a rua e desperta a vizinhança com os gritos de “ordem! ordem!” (Ordnung). Um ex-agente da Stasi (Staatssicherheit, o ministério para a segurança do estado) sem emprego com a queda do muro, enquanto a mulher trabalha como garçonete num bar percorre as ruas da cidade à noite para surrar pequenos assaltantes ou jovens embriagados que agridem mulheres ou estrangeiros com ofensas racistas (Wege in die Nacht). Para mais rapidamente serem aceitos na ainda Alemanha Ocidental, tão logo o muro é derrubado os vizinhos se apressam em denunciar a militante radical que vivia em asilo político em Berlim Oriental (Die Stille nach dem Schuss).

 

Neste quadro A vida dos outros introduz uma nota otimista a partir de uma imagem capaz de tocar bem sensivelmente na alma alemã. De repente, discretamente, algum coisa fora da ordem: fone nos ouvidos, atento a tudo o que se falava na casa do suspeito autor teatral Georg Dreyman e sua mulher a atriz Christa Sieland, vigiados por um sem número de microfones ocultos no quarto, na sala, no corredor e no banheiro, o Hauptman Gerd Wiesler da Stasi deixa rolar uma lágrima. Em lugar de uma qualquer conversa subversiva contra o poder ele ouve um som ainda mais subversivo: música.

 

A possibilidade de substituir a razão falsa por um sentimento verdadeiro como um modo de efetiva e concretamente derrubar o muro. Música, o que não se controla, o que não passa pela razão, como um sinal de humanidade e de liberdade. Lenin, mesmo ele, comenta Dreyman, confessou certa vez que se ficasse a ouvir Apassionata de Beethoven assim como ela deveria ser ouvida talvez não tivesse tempo de fazer a revolução.

 

Nesta história toda feita de escutas, de microfones ocultos e de fones nos ouvidos para a redação de relatórios, é especialmente significativo que a queda do muro de Berlim seja mostrada por meio do som que chega pelo pequeno fone de um rádio na fechada e escura sala de trabalho de Gerd Wiesler. As imagens de A vida dos outros falam de som: contam a história de um homem que derrubou o muro que construíra para se afastar do mundo porque, profissional do ouvido, um dia, ao acaso, ouviu o que não esperava ouvir: música. A música o encaminhou a Brecht, Brecht ao teatro, o teatro a ouvir a vida como ela é: música.

 

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